Quem Me Leva Os Meus Fantasmas?

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“Marinheiros perdidos em portos distantes”
“Em bares escondidos
“Em sonhos gigantes”

Os fracassos e as perdas materiais nos ensinam que a vitória é uma questão de paciência ou talvez, confiança. Persistência é mecanismo de insistência. Objetos inanimados sempre incomparáveis com a molécula da vitalidade.  Não poder ver ou pegar, abraçar ou beijar, perder por amar. E assim, mudamos todo o percurso de uma vida. O sentimento de impotência sobre essa senhora do destino é quase enlouquecedor. Não se “ter” é dor. Pais e mães sempre sentirão a sensação do fracasso diante da perda de um filho. Pensam eles – só nos resta os pedaços.  Mas quem conhece o outro lado? Assim é uma filha que perde a mãe, o irmão que perde o outro, o marido que perde a esposa. O gosto da culpa não pode ser medida por uma questão de parentesco. As culpa dói mais que a própria perda. Você acorda todas as manha e suplica que ela suma. Mas ela não te abandona. Falhei. Falhei por não tentar mais uma vez.

Semana passada me deitei em sua cama. Casa vazia, todos se foram. Sem ressentimentos mas eu precisei.  Voltei. Retornei pois seu rosto estava esquecido. Perdido. Abracei seu travesseiro e a memória olfativa me resgatou. Seu cheiro estava lá. Na memória, o vazio de falhas perdidas. Filhos que teimam em se espalhar, famílias que se separam. A união faz lembrar uma dor recente que não tem mais sua presença. Ninguém quer falar porque ainda dói. Estou tentando encarar para que sua memória não morra.  Fechei os olhos pois agora, só assim pra encontrá-la.

Dormi e você apareceu. Veio doce e com voz suave;

Resgate-se e tome seu posto. A menina aqui está de pijama e grita que ninguém entenderá até que passe pelo mesmo. Sim, livros de cabeceira se confundem com as páginas do irreal. De longe, ouço você;

Às vezes é preciso ir longe pra se encontrar o que quer.
A fixação é uma prisão…
Deixem as raízes para as árvores…
Somos homens, temos pés…
Caminho e não paro!
Navigare necesse est…

Acordo com este poema antigo na mente. Poema meu compartilhado entre nós.  Veio na mente uma cobrança infundada. Será?  É possível que aí de cima estou te dando trabalho? Lembrei de conselhos antigos. Dizia você, mediunidade atrapalha. A opção é a insanidade, pois o livro é a batalha. Assim pensou Jiddu Krishnamurti?

“Então que se dane, pois não é sinal de saúde estar bem ajustado a uma sociedade doente”. Sua ausência é loucura. Estou aqui, novamente em seu barco. Maria, parece ironia. Estou como aquela paciente que tenta puxar o tubo e se livrar da dependência. Ela quer, mas não é capaz de respirar sozinha. Essa cruz é pesada e na cabeça vem uma indagação. Se realmente há um plano elevado, pergunte aos homens de branco, marinheiros do alto, se essa brincadeira acaba. A cabeça tá confusa e tem uma legião de fantasmas que habitam um pedaço que você ocupava. Cadê a minha bússola? Me coloca no trilho, direciona meu barco.

Se eu falhei, peço perdão. Me redimo pela culpa que carrego por te perder.

Se havia mais uma possibilidade de velejarmos juntas, afundei o seu barco e perdi sua âncora.

Não existe mais muro. Vem velejando como a poesia do luto.

Posso te explicar? É que no meio do caminho tentei buscar outras dores.  Me perdoa por arrumar outras pessoas pra me ferir em seu lugar. Qualquer um poderia partir que não ela. Acho que já posso me redimir em buscar outras dores pra doer que não fosse por você.  E acho que já era hora de te agradecer por ter me escolhido. Por ser a última a ouvir sua voz de partida que abre um ferida quando a lembrança retorna me trazendo a imagem de uma das mãos ocupadas e livre das suas. Por naquele momento ter buscado uma fuga e ter ido distante enquanto me pedia pra pegar minha mão. Por ter dividido a atenção, ter-me feito um vilão. Até o ultimo momento da sua vida, era sempre eu. Por que eu? Aquele dia na UTI, já tão fria, distante e eu em seus ouvido. Te liberto! Não está mais aqui, vá em paz. É bom que saiba que doeu. Doeu mais que a noite anterior de tormento. A vida passou como um filme durante o curto momento da ambulância até a intubação. Seu olhos estavam nos meus. Não te dei atenção. Só sabia insistir em colocá-la em um avião. Irônico? Não foi preciso nenhum meio de transporte de engenharia humana para que voasse alto naquele dia.

Maria, o poema de seu conterrâneo estará para sempre cravado na carne de sua filha.

Ele é você em mim.

Então, diga-me;

Quem me leva os meus fantasmas?

“De que serve ter o mapa
Se o fim está traçado

De que serve a terra à vista
Se o barco está parado

De que serve ter a chave
Se a porta está aberta

De que servem as palavras
Se a casa está deserta?”

Renuntiatio

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“Ai que ninguém volta
ao que já deixou”

Caminho quando há oportunidade e vou só quando tenho coragem. Volto por malandragem e devoro-me por maldade. Desprendo-me agora por vaidade. E o gosto do orgulho? Ah, este é o mais saboroso. Salivo por ele intensamente bem mais do que pelas mais bela das humildades. Que este sabor doce nunca mais me abandone e dissolva sempre nesta boca amarga. Talvez nesta hora o rubor seja a cor que me veste a pele, pois no calor do descontrole, palavras me rasgam como navalhas. E as faltas? Estas, recidivam como doença. Mas quem se importa? Diante dos demônios que dançam na mente, salvar-se é demência. Aceito com resignação e me despeço por aqui ainda que dando voltas no meu tormento. Embora pássaros nunca tenham sido as asas reais para o voo dos meus dias, quase que avisto chegar. Vem de longe e é uma Fênix. Mas e o peso? Não há! Nem o da mais profunda das consciências. É que neste momento a leveza me domina com veemência. Doer faz mal. Besteira, sentir é viver. E que fique claro que nesta vida insistente pela luz da liberdade, prender-se, é a morada das sombras. Não somos de ninguém e redenção é o meu nome.

“Ai que ninguém lembra
nem o que sonhou”

“One”

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“We’re one, but we’re not the same”

Você se pergunta de frente ao espelho como vai a própria vida, e a vida te responde – virtualizando. Esses dias, neste ritmo cibernético comum, me pego lendo parte de um texto de um internauta onde ele afirmava que “O amor virtual existe sim. Não importa se alguém mora do outro lado da rua ou do mundo… e quando se der o encontro, será o de duas almas apaixonadas”. Bem ressaltado – “Encontro”. Palavra rara em um mundo no qual o teclado é o objeto que mais esquenta com o calor trocado mediante o toque dos próprios dedos, onde os olhos refletem o brilho de um monitor. O amor é um cara flexível e se manifesta em várias formas de acontecer, fazendo com que a gente siga acreditando que o bendito possa dar certo de qualquer maneira. Sem perder a fé, mas como bem ressaltado pelo próprio pensador, ninguém se imagina refém de uma eternidade não consolidada em uma relação sem encontros.

Há uma frase do Mestre Ariévilis que diz “Um amor virtual com cumplicidade, vale mais que um relacionamento ao vivo”. Forte, mas esta afirmação me desce à seco por deixar uma falha – Na verdade, nada substitui um relacionamento real com cumplicidade.  É sabido que a internet é um ambiente propício àqueles que buscam preencher espaços vazios. E você, suscetível, sensibilizado e transbordando pela necessidade de uma relação, seja de amizade, cumplicidade, afeto, ou malandragem, se permite. E pior, se entrega. O convite é tão esperado, que você aceita de imediato, recepcionando o seu mais novo contato e já o retribui com as “boas vindas”.

A quantidade de site de relacionamento, de perfis fajutos e de pessoas enlouquecidas por afeto nós mostra o quanto somos frágeis e dependente de uma troca afetiva. Ainda que ela seja puramente virtual, nós buscamos por ela. Que seja mentirosa, mas que me traga publicações, curtidas, e um desejo enorme de compartilhamento. Ainda que ela invada sua vida pra ocupar um lugar que não exista. Se envolver com novas pessoas não é uma tarefa difícil. A internet facilita tanto a busca por nossas afinidades, que somos seres incrivelmente criativos quando se trata da criação de novos grupos, páginas, perfis e blog’s, todos com o mesmo propósito; que filtre, proporcione e facilite o encontro entre nossas “metades”.

Opa, achei! Navegando por aí, entre “arrobas” ou “hashtags”, eis que eu encontrei você. E esta relação vai se construindo, se transformando, fluindo quando esse novo contato te atrair, te envolver, te prender. Não há como escapar! As paixões acontecem. O problema é que, aqui, dentro desta loucura virtual, o mundo é imune as imperfeições. Todos somos criaturas de carrara.  Se eu fosse parar pra explicar o significado da palavra, poderia redigir um novo texto de maneira didática puramente pra definir que, o que é suscetível de se realizar, em potencial, como possibilidade viável, é também, virtual.

Quando eu era pequena, eu adorava filmes de naufrágios. Eu ficava me questionando como alguém poderia ser tão forte à ponto de nadar até à margem de uma ilha perdida, e o mais fascinante, como as histórias de amor podiam acontecer mesmo dentro daquela situação inóspita, totalmente isolado. Sim, aqueles típicos filmes românticos onde mesmo morrendo, você encontrará um recado “inbox” mesmo que ela venha numa garrafa. Assim somos nós! Esperançosos como aquele homem perdido na ilha, precisando de resgate, recebendo aquela carta anônima dentro de uma garrafa suja, permitindo-se acreditar que não morrerá ali, sozinho.

E então ele abre a carta, lê, descansa na areia, se entrega ao som das ondas batendo e acredita em cada palavra. Ele não tá perdido. Alguém sabe onde ele está. A verdade, é que nos tornamos vilões de nós mesmos. A confiança entregue à perfis sem nenhum contato real, muitas vezes, nos boicota. Quando você está feliz com aquela troca pela ilusão de que apenas a distância “vos separa”, nada te importa ou preocupa. Você não se pergunta se as mesmas mãos que digita, rabisca, ou psicografa, tem dono. Ou ao menos, se estas mesmas mãos tem a real pretensão de pedir urgência na troca da constância da felicidade dos bilhetes pela inconstância dos sentimentos reais. Palavras ditas pelas cordas vocais. Vibrar no ouvido pode derrubar toda uma imagem construída ou uma perfeição planejada.

Nós, tão quanto alguém perdido de maneira geográfica e física, nos apegamos muito fácil àquelas palavras por um único objetivo; a esperança de que, um dia, tudo aquilo será real. E a gente se entrega.  Se entrega porque alguém do outro lado da ilha tá esperando por nós. E até que ponto se entregar desta maneira é vantajoso? É válido ou perigoso? É uma oportunidade ou um caminho sem volta? São diante destas indagações nunca feita por nós, que obtemos as respostas. Ela é doída, mas sim, ela tem volta. Portanto, internautas, eu aconselho que, ao se entregar de cabeça, toque primeiro e ame depois. E antes que se dissolvam na solidão e no sofrimento diante das ligações fortes da própria emoção, e de todo o afeto nutrido ao do longo tempo – sim, ao longo do tempo. Pois há relações como estas que podem durar meses, anos ou uma década. E quem nunca teve um sentimento real por aquele amigo querido que nunca viu? Não sei onde ele está, ou aonde ele vai, mas sei que ele é parte de mim. Tá moldando meu dia, compondo minhas coisas, definindo minhas escolhas, preenchendo meus sonhos, transformando meus sonhos. E não, não é tão ruim.

Mas com o tempo, se não saírem do “papel” a consequência é a dor. Antes de nos envolvermos com qualquer pessoa, real ou digital, é preciso que voltemos pra dentro de nós e nos perguntemos; Será que do outro lado do monitor, acima de qualquer curto circuito, este mesmo amigo nadará por mim caso eu afunde? Ou tão quanto você, caso ele naufrague? Nossas percepções e intuições sempre nos responderá. Somos seres observadores, mas iludidos até o último fio do cabelo.

Nós insistimos em ocultar a verdade para tapear o sofrimento, a dor da perda, do desligamento. Pergunte-se sempre se este mesmo alguém, ali, do outro lado, te deseja na mesma intensidade, fazendo com que, cada dia, esta barreira imaginária se estreite, indo até seu encontro. Se a resposta for sim, então não espere, não adie, não procrastine. A vida precisa acontecer no palco da biologia, pois se o limite for uma relação regada à terceira dimensão e processamento de dados, mais cedo ou mais tarde, você vai se afogar, e navegar, será traumático. Não há ressuscitação pra este mergulho tão profundo.

É fácil achar alguém que vá boiando sem esforços por você, mas navegar à águas reais, é para poucos. Atravessar à nado ondas gigantes e todas as tempestades pra te buscar, não é pra qualquer contato. Ninguém nasceu pra ser “One’, e todo este universo digital te confunde, te nutri à falsas esperanças de que, ser um, é uma questão de barreira.

A barreira física nunca existirá. Seus pensamentos são capazes de te prender à sensações projetadas pela própria mente, te dando a ideia de que, ir ao encontro, é irrelevante. Mas a gente perde. Perde por se limitar à ilha do universo destas “times” da vida. E ela acontece todo o tempo. Resistir é quase impossível. Aquele perfil novo que aparece no seu café e que vai te despertando a curiosidade de um beijo. Na sua time, aquela foto te remete um gosto, um sabor, um cheiro. E o seu corpo esquenta cada vez que um “curtir digital” aprovar sua ideias.

Não é uma segurança e nem uma certeza, mas talvez amanha, depois de toda uma construção, pode ser ele que te dê o peito pra descansar, o colo pra se deitar, ou o tempo pra te doar.  Nossa mente pode nos levar à atravessar o outro lado da ilha nos proporcionando um toque cósmico, um prazer individual, no qual nada se perde, machuca, ou afunda. Se perde não acontece no imaginário. O espetáculos dos pensamentos projetados são como aqueles show’s da sua lista de fã por obsessão. Não importa se vai chover, se vai trovejar ou se o céu vai desabar. Você irá. É tudo tão perfeito, e você estará lá. A dor só acontece caso você descubra que a banda que você esperava, não vai tocar. Lá em cima do palco seu cantor não irá se apresentar. E aí, você se joga à navegar no youtube como forma de aliviar as frustrações de um plano não concedido.

Tudo dói quando seu objeto da projeção nunca esteve lá, na mesma sintonia, pra te acompanhar. Correndo os mesmos riscos de se machucar, mas nutrido de toda a coragem de enfrentar. Às vezes, as pessoas correm. Possuem tanta certeza em suas conquistas, que esquecem de ser, de torná-las parte de um mundo real. Esquece que o virtual não anula a força de uma palavra, de um compromisso, de honrar todos os planos.

“Viver é melhor que sonhar”, e Belchior foi sábio nesta frase. Sonhos são os combustíveis para exteriorizar a razão. Mas ele precisa ser expressado nesta matéria perecível chamada universo. Se continuar no cosmo do virtual, morrerá para vida pra vida real tão quanto as almas que dançam no plano mais elevado de nossas memórias. Estas, apenas digitalizam as energias da própria lembrança perdida.

Aqui em baixo é diferente. A carne pede apoio. É melhor tratar a ferida aberta à analgésico que sentir doer uma lesão que eu não possa localizar. Tentar consertar o que não houve é pior do que se curar de toda a dor do que aconteceu ou viveu, pois terá eternamente um amargo gosto de desperdício, de perda de tempo, de ilusão, de engano, de um desgaste, de uma dor desnecessária.

E isso consome cada parte da sua consciência. Não existe tratamento para o que não se pode diagnosticar, e o risco é muito grande se não conseguir acertar. E é por isso que hoje, eu afirmo; Nunca se permita planejar sozinho. Não seja “One” numa relação, qualquer que seja. Na amizade ou no tesão, seja dois. Seja inteiro. E nunca prometa nada se não puder cumprir, se entregar, doar. Ninguém consegue amar sozinho.

É preciso desligar a tomada, o wi-fi, acabar com a bateria, “deslogar”, deligar e viver. Às vezes, se constrói histórias lindas e eternas, por encontro de palavras bem organizadas. Mas é preciso muito comprometimento, lealdade, fidelidade para esperar, para deixar entrar sem medo de se culpar, de errar, de fazer acontecer.

Em tempos remotos, é sabido que as pessoas se apaixonavam pela rádio, pelas cartas, e este nunca foi o problema. mas são nestes mesmos tempos que observávamos pessoas mais fiéis, bem intencionada, honradas pela valorização de suas atitudes. Se faziam valer, ligavam para o descumprimento de uma palavra firmada.  Em um mundo de onde as relações mesmo reais, são tão virtuais, descartável, rasas, superficiais, onde a mitomania parece até uma virtude, é preciso se cuidar mais. Se cuidar e se proteger é a maior forma de amor próprio.

-Eu não tenho nada, mas ofereço o que pareço ter.

-Eu não sou essa construção exposta no meu perfil, mas vou dizer que sou, e ai de mim, se do outro lado alguém descobrir que não sou nada disso.

Assim são uma grande parte destes perfis tão atraentes. Se apresentar para quem nos conhece, é fácil. Mas para quem nos admira sem saber a verdade, os defeitos, os impasses, é tarefa impossível. É preciso muita vontade, esforço, certezas do que se quer.  E o preocupante é, que assim, estamos direcionando nossa evolução, nossos passos. Nos distanciando do que não queremos viver.

Antes, respondíamos – vivendo! Mas nessa era das conexões nada mentais, a gente se entrega cada vez menos. Alguém, certa vez me disse, que o bom da vida se fazia de olhos abertos. É, às vezes, criamos uma frase com tanta intensidade que esquecemos de praticá-la, pois embora ela estivesse de olhos abertos, não percebeu que suas portas estavam todas fechadas, e a vida só acontece se partilharmos todos juntos, do lado de dentro do mesmo espaço. O calor é o que esquenta nossos corações, e eu, sigo acreditando em um mundo em que embora meus olhos estejam fechados, minhas portas do comprometimento estarão sempre abertas. Mesmo com meus pés quase que flutuando. Sigo vivendo mais em “Verum” e não em “Virtus “, pois nesse mundo chamado real, não há nada que substitua a vida sobre a perspectiva de um toque, de um gosto, de um abraço. Que os abraços que te aguardam sejam puros e verdadeiro, e o resto, deixe pra investir no imaginário. E se for pra navegar, que seja de verdade. Algumas pessoas, embora naufraguem, sempre estarão dispostas a entrar no seu barco.

“Well, it’s too late

Tonight

To drag your past out

Into the light”

Quanto ao vídeo a definição é;

Real…

Vivo…

Foda….

Recomenda-se música para quem sabe ler embalado por notas.

Atsigani (Intocável)

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Não posso me firmar em um lugar.

Eu nasci respirando a liberdade.

Sempre com a cabeça longe, distante, viajante.

Eu nunca pude esperar.

Da alicerce do lar me perdi desde cedo, tornei-me distante.

“No volverei” , minhas primeiras palavras.

As mesmas que por culpa me reclusava.

Mas não tardará.

Respirava o ar da vida, e logo me curava.

Quase impossível ter algum posto, não acampar mais.

Os anos passaram, meus cabelos mais compridos e brancos, me concediam toda a experiência de uma vida de entregas, de caridade, de doação.

Levei na bolsa alguns pertences.

Nunca consegui acumular nada.

Nem histórias.

Estava acostumada, as pessoas me procuravam.

Nas cartas, o futuro. No cristal, o passado. Nas suas mãos, meu dom de ler sua sorte

As pedras traziam de volta toda a energia que me era sugada.

Muitas vezes olhava pra cima e me questionava.

Mas meu guia logo aparecia.

Seus olhos azuis me hipnotizava.

Diolindo, era seu nome.

Seu violino tocava a minha alma. Vibrava em suas notas e logo me perguntava;

Por que choras, cigana?

– Porque estou atormentada, contaminada. Carregando nas costas o peso e a dor de quem de mim se aproximava.

Logo tinha a resposta;

– Então limpe as lágrimas, pois tua cura, tá na estrada. Seu caminho é longo, e se prepare pra jornada.

O bem, você sempre fará. O mal, sempre te contaminará. Mas sua fé, te resgatará. Recupere a leveza da sua alma, e vá.

Não é fácil a missão, mas é Deus que te acolherá o coração.

Aqueles olhos azuis me acalmava.

Estavam fixos. De repente, sumia.

Nas palavras dele, minha salvação.

Ele me recuperava.

A sensibilidade me tomava.

Tomava o tempo, o rumo, a vida.

Assim sou eu, assim é meu povo.

Eu não tenho paradeiro.

Sigo o mouro.

Salve este povo da rua.

Salve cigana.

Salve a força da Lua

Salve sua história, sua memória, sua presença em meus sonhos.

Que teus cabelos brancos esteja sempre cobrindo meus planos.

Homenagem ao povo cigano.

Io sono Sinti.

E venuto di Roma, e venuto da lontano.

Salve este povo Manouch

Salve cigano!

Hoje é seu dia.

Muros

Foto tirada por mim. Parque Ibirapuera, SP.

Estão nas praças, parques e ruas da cidade.

Os encontramos por todos os lugares para nos trazer a lembrança dos limites.

De nossa noção do permitido, do espaço percorrido.

São eles.

Muros!

São apenas, muros.

Não sei, mas aprendi que as fronteias espirituais são as piores.

Desconstruímos sonhos.

Bloqueamos planos.

Destruímos metas.

Aonde chegaremos com tantos bloqueios?

Para onde vamos com tantas limitações?

Liberto-me então de toda esta parede de concreto que se ergue formando uma barreira em minha alma.

Não temo mais.

Saltar é minha meta.

E pular obstáculos, é meu ofício.

Ouvir uma canção que ascende e louva também faz bem.

Nunca intervi na religião de ninguém.

Não sou de dar palpites.

Mas para todos que se servem da energia divina aproveite sempre para fechar os olhos, se entregar e cantar;

“Venha o teu reino
Seja feita a tua vontade”

Deus sempre ouvirá à todos que acreditam nele.

YOU DIE TO GET IN AGAIN

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Morreu por não ser previsível, por não ser palpável, consistente, visível.

Morreu, porque não existia de verdade, estava presa por maldade, limitada por crueldade.

Deixou de existir por não se fazer valer, por não acontecer, por não poder prever.

Morreu por não tocar, não enxergar, não ter.

Se matou todo dia de vontade, de prazer, de vaidade.

Buscou pelas ruas da cidade respostas para sua indignação.

Não deu, em vão, pois tornou-se vítima de sua própria prisão.

Foi incapaz. Não pode se achar, se encontrar, se revelar.

Desabou de alguma maneira, no meio do caminho.

Sentou-se no chão. Chão sujo, frio, gelado, molhado, insólito em algum beco escuro.

Morreu, morreu sim. Mas viveu também.

Viveu porque sabia que em algum lugar alguém iria buscá-la.

Enfim, se perguntou, se questionou. Olhou para dentro de si, fechou os olhos e respirou.

Se cobrou e pensou que não havia morte lenta para alguém tão pulsante, energética, latejante.

Se resgatou de toda dor, ergueu a cabeça, seguiu, levantou.

Quebrou as correntes que a prendia, amarrava, judiava, feria.

Não se sabe ao certo, mas alguma coisa à curou.

Talvez o que a libertou tenha sido a recuperação do próprio amor.

“Can you hear me?

Are you near me?

Can we pretend to leave and then

We’ll meet again, when both our cars collide”

Vai pra onde?

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A ansiedade transborda toda vez que eu arrumo uma mala ou tenho uma rota traçada. Um plano de viagem. Carrego comigo, sempre, muito mais do que objetos e poucas roupas socadas em uma bagagem. O que eu levo mesmo, são as expectativas, principalmente, as de quem eu irei encontrar.

Como serão estas pessoas novas com quem eu irei cruzar? Pensamentos firmes sobre cada detalhe. Me pego imaginando se farei novas amizades ou se vou estabelecer novos relacionamentos. E quem não? Às vezes respiro e recupero a noção de realidade, afinal, se estes rostos não participarem da composição da minha viagem, ou se eu não conseguir tornar possível esta vontade imensa por buscá-las, mesmo assim, não desanimarei. Tenho muitos planos visuais, e saber ao menos registrar com sensibilidade essa delícias, estes novos lugares, seguramente, eu farei com maestria.

Viajar é mais do que conhecer um novo território, uma nova cultura ou pessoas diferentes. Viajar, é conhecer uma nova vida. É se mudar-se. É vivê-la. Não importa por quanto tempo. Se uma semana, um mês ou dez anos. Você sempre se lembrará de algo marcante, de um tempo confortante, de uma imagem impressionante. Vai tomar como um hábito, alguma coisa que te fez sair da rotina durante esse tempo de odisseia. Tudo isso é tão rico, que não temos a dimensão de quão valoroso é transporta-se para outro mundo.

Ao retornar, ficará sempre um sentimento novo. Sentimento de saudade, de apego, de nostalgia. E você se voltará pra dentro de si se perguntando; e aí, quanto eu paguei pela minha passagem? Qual será realmente o preço de um bilhete. É incalculável o valor de uma jornada. Não há nenhum centavo ou vintém que pague pela construção de um novo futuro, de um caminho à percorrer, um destino. O valor de um sonho, a vontade de uma mudança radical na vida. Tudo isso, não tem preço.

Se instalar em um novo ambiente é quase como um desafio. Saber que a padaria será outra. Que não terá mais aquele desconto na livraria de sempre, ou que passará batido aquela fruta no seu João da quitanda.  Mas pera aí! E por que não? Novas relações se estabelecem em nossa vida. Pessoas, vem e vão, o tempo todo, nos deixando uma lembrança, uma marca, um sentimento diferente. Cada uma delas, como um papel importante naquele baú chamado lembranças. Nada é inútil.

Conquistar novos espaços é incrível. É como se medíssemos nossa empatia, nossa capacidade de domínio, de distribuir gentilezas, fascínios, nobreza. É ter em mente que somos capazes de conquistar qualquer plano, desbravar qualquer território. Tenho bem resolvido dentro de em mim a certeza de que, este mundo é um oceano, e eu, nunca tive o menor comportamento de peixinho de aquário pra ficar nadando no mesmo lugar. Meu intuito sempre será de navegar outros mares. Portanto, aperto meu cinto e boa viagem.

E você, vai pra onde?

“Don’t you worry, don’t you worry child

See heaven’s got a plan for you”